• Ricardo Rochman

Finalmente os BDRs estão chegando ao povão!

A partir de setembro de 2020, começará a vigorar a Resolução 3 da CVM (http://www.cvm.gov.br/legislacao/resolucoes/resol003.html) que permite aos investidores de varejo (ou não qualificados/profissionais*) finalmente negociarem BDRs (Brazilian Depositary Receipts) na B3, assim como hoje se negociam ações de empresas já listadas na bolsa.


Os BDRs são para você que tem vontade de investir e para diversificar seus investimentos em ações da Apple, Google, Microsoft e outras mas não tinha dinheiro suficiente para isso, ou não queria passar por todo trabalho de abrir conta no exterior, transferir o dinheiro, entender como opera nos Estados Unidos (ou outro país), etc, etc.


Investir nos BDRs é como investir em uma ação qualquer na bolsa, por isso basta fazer suas análises e colocar as ordens de compra ou venda no seu app de investimentos (home broker), aí você se sentirá como um investidor global. Você terá a valorização (ou desvalorização) da ação, dividendos, assim como um acionista no exterior. No caso dos dividendos muita atenção, pois normalmente se cobra taxas adicionais dos dividendos de BDRs afinal a empresa custodiante terá trabalho para fazer o câmbio e transferir o dinheiro de um país para outro, e a maioria dos países no mundo cobra imposto de renda dos dividendos (o que deve acontecer aqui no Brasil com a reforma tributária).


Mas entenda que ao possuir um BDR você não é acionista da empresa, mas sim detentor de um certificado brasileiro que está lastreado em ações no exterior. É como quando você vai a um museu, ou evento, e é obrigado a colocar sua bolsa ou mochila em um armário, em troca recebe uma ficha, no caso a sua mochila é a ação e o BDR é a ficha. Comprar um BDR de alguém seria como comprar a ficha, não ter acesso a mochila mas saber que ela está bem guardada.


Comprar um BDR, como, por exemplo, da Apple (AAPL34 na B3) é equivalente a comprar dólares aqui no Brasil e comprar a ação na NASDAQ, ou seja, em uma operação você faz na verdade duas, pois compra dólares e ação então já está colocando riscos dos mercados de ações e de câmbio na sua carteira, o que é positivo para diversificação.


Os BDRs podem ser patrocinados ou não-patrocinados, para o investidor em geral isto não é de grande relevância, mas quer dizer que no primeiro caso a própria empresa que emite ações "patrocina" os BDRs depositando as ações no país de origem (ex. Aura Minerals), e no caso dos não-patrocinados alguma instituição financeira no exterior (ex. Citibank NY) compra as ações e as custodia para que uma instituição no Brasil (ex. o banco B3) emita os BDRs, sem que a empresa emissora das ações (ex. Apple, American Airlines, etc.) esteja envolvida.


No site http://www.b3.com.br/pt_br/produtos-e-servicos/negociacao/renda-variavel/brazilian-depositary-receipts-bdrs-nao-patrocinados-nivel-i.htm você poderá ver os BDRs disponíveis, bem como informações gerais sobre eles, como a distribuição de dividendos e demais proventos.


O lançamento do BDR, ou programa de BDR, pode ser via IPO (no caso dos patrocinados) ou pela contratação de lotes de ações para lastrearem os BDRs (no caso dos não-patrocinados), como se pode ver no documento do BDR da ação da Apple: http://siteempresas.bovespa.com.br/DWL/FormDetalheDownload.asp?site=C&prot=646189


Cada ação da Apple depositada nos Estados Unidos lastreia 10 recibos de depósito (BDRs) na B3. Por que escolheram essa relação de 1 ação para 10 BDRs? O motivo principal é chegar a um valor em Reais para o BDR que garanta uma boa liquidez para o título aqui no Brasil, como, por exemplo, uma da ação da Apple vale aproximadamente R$2800 (montante alto para negociação) se o seu BDR equivale a 1/10 da ação, ou seja, por volta de R$280, a negociação será mais fácil. Por isso a conversão do preço de um BDR de Reais para dólares não fará com que os valores sejam necessariamente iguais.


No gráfico a seguir estão as cotações de 1 e de 10 BDR da Apple (AAPL34 na B3) em Reais, da ação da Apple (AAPL na NASDAQ) em US$ e em R$.



Atenção, se você comparar o valor do BDR com da ação que o lastreia, convertendo as cotações com câmbio de Reais para dólares (ou vice versa), normalmente verá alguma diferença de preços e aí ficará com vontade de fazer arbitragem, mas cuidado pois essa diferença pode não ser verdadeira.


A diferença de preços pode ocorrer por não considerar os custos e taxas de transação, como, por exemplo, impostos, corretagem, etc., ou simplesmente pelo BDR ter liquidez menor na B3 do que a respectiva ação que serve de lastro. No período de 2017 a agosto de 2020 o BDR da American Airlines (AALL34) foi negociado em somente 18,4% dos dias em comparação com as ações de lastro, e o volume financeiro foi em média de 0,004% do volume da respectiva ação (AAL) listada na NASDAQ, assim sendo, é fácil encontrar diferenças de preços entre o AALL34 e a AAL quando se faz o câmbio de moedas, mas não representa necessariamente oportunidade de arbitragem.


Os BDRs são ótimas opções de investimento pois dão acesso a ações de empresas modernas, que possuem políticas de dividendos claras e estáveis, e permitem uma diversificação em ações (equity) e câmbio de forma simples. Com a Resolução 3 da CVM, a B3 terá oportunidade de lançar muitos e diferentes BDRs de mercados internacionais relevantes, por isso fique atento pois novas alternativas de investimento surgirão nos próximos meses.


Se não quiser perder tempo selecionando ações você pode escolher um ETF de índice de bolsa, como, por exemplo, o do S&P500 (ex. IVVB11), que tem o mesmo efeito mas para uma carteira bem diversificada que representa o índice de ações.




Obs.: * A definição de investidores qualificados e profissionais pode ser encontrada em: http://www.cvm.gov.br/export/sites/cvm/legislacao/instrucoes/anexos/500/inst554.pdf



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