• Ricardo Rochman

A fábula das Big Techs

O Ornitorrinco (O) e a Salamandra (S) se encontrarão daqui uns 10 anos (usando algo como Zoom com realidade virtual) e terão o seguinte diálogo:

- (O) Tudo bem miga? Como tá tu? E as novidades? - (S) Comigo tudo bem e vocês como estão? Você lembra da pandemia do Coronavírus que ocorreu uns dez anos atrás? Aquilo não foi nada comparado com a que tivemos no ano passado. Mas a novidade é que acabei de comprar um apartamento novo. Fiz um leasing imobiliário pela Google Finanças, e o mais legal é como cheguei nessa compra. Eles analisaram o meu deslocamento diário e perceberam que eu gastava muito tempo levando as crianças para escola e depois indo para o trabalho, aquele mesmo que eu vou presencialmente só 3 vezes por semana. Então eles perceberam que havia um apartamento à venda próximo ao trabalho e a escola das crianças, e me ofereceram o financiamento para adquirir esse imóvel pagando taxa de juros de 3% ao ano pelos próximos 20 anos. Na hora entrei no link do Google Maps Realidade Virtual, que me enviaram, gostei do lugar e fechei o negócio com registro no blockchain da Baidu Cartorial. E você, o que conta de novo?

- (O) Eu acabei de fechar a assinatura mensal de um carro elétrico, você sabe que eu defendo a bandeira ASG há muito tempo, e o Facebook analisando meu perfil me enviou uma proposta da assinatura do novo modelo de carro da Toyota Uber. E ainda usei uma promoção do meu novo cartão de crédito virtual da Apple Cartões, não entendo por que ainda usam o nome “Cartões” que já sumiram fisicamente há uns 5 anos. Aliás me deram um limite de crédito fabuloso, que foi proveniente do acompanhamento que eles fizeram de todas as minhas transações e hábitos de toda vida. E você o que vai fazer com o apartamento antigo?

- (S) Acho que irei vendê-lo pela Amazon Imóveis, lá posso escolher entre vender direto para outra pessoa ou para eles. Aí poderei aplicar rapidamente o dinheirinho em algum fundo de investimento. - (O) Boa ideia, te sugiro um dos fundos de investimento que o Facebook Asset criou que remunera conforme a renda futura dos seus top instagrammers. - (S) Sensacional, depois você me diz qual fundo você aplicou pois eu tô querendo também aplicar parte das criptomoedas que recebi do trabalho que fiz para uma empresa indiana, que consegui por meio do hub de trabalhos do Linkedin da Microsoft. - (O) Pode deixar que te aviso. Aliás, você lembra mesmo quais eram os nomes daqueles bancos que existiam na época da COVID-19?


Atenção: a fábula acima é pura ficção, afinal ornitorrincos e salamandras não conversam.


Apesar de ser uma fábula não está muito longe da realidade que veremos daqui alguns anos, pode ser daqui a 5, 10, 15 ou 20 anos, mas as Big techs (Amazon, Apple, Facebook, Google, Microsoft, Samsung, Tencent) hoje são dominantes no mundo e serão nas próximas décadas, pois seu o poder financeiro cresce continuamente, e seus braços começam a abraçar o mercado financeiro com uma grande vantagem competitiva que é o domínio da tecnologia e acesso a dados.

Somando o patrimônio líquido de todos os bancos e cooperativas de crédito no Brasil em março de 2020 (dados do Banco Central do Brasil), chegamos ao total de R$1,5 trilhão aproximadamente. Se pegarmos o quanto a Apple tinha em caixa e aplicações de curto prazo em março de 2020, e somarmos com os recursos da sua subsidiária Braeburn Capital (https://en.wikipedia.org/wiki/Braeburn_Capital), isso já supera o total do patrimônio líquido dos bancos e cooperativas de crédito no Brasil, ou seja, a Apple sozinha poderia criar um sistema financeiro equivalente ao sistema financeiro brasileiro, e provavelmente mais eficiente e inclusivo.


Este exemplo já mostra o poder que as Big Techs têm atualmente, e a fábula mostra um pouco de onde elas poderão chegar no futuro (não muito distante).


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